Acadêmica: Aline Meira - RA: 76972
Texto retirado de: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psyche/v10n19/v10n19a09.pdf>
“Reprodução assistida e subjetivação infantil” – Parte II
Maria
da Graça Reis Braga - Mestre em Psicologia Clínica (Universidade
Católica de Pernambuco/UNICAP); Membro do Laboratório e do Grupo de
Pesquisa Interação Social e Familiar (UNICAP).
Maria
Cristina Lopes de Almeida Amazonas - Doutora em Psicologia
(Universidade de Deusto, Bilbao/Espanha); Professora da Graduação em
Psicologia e do Mestrado em Psicologia Clínica (Universidade Católica de
Pernambuco/UNICAP).
ResumoNeste
artigo as autoras se propõem a refletir sobre o processo de
subjetivação infantil, tendo em vista o contexto do desenvolvimento das
tecnologias de procriação assistida. Para tal, irão se valer dos
ensinamentos de Winnicott a respeito das relações primárias entre pais e
filhos, articulando-os com o estado gestacional, nascimento e relações
primárias entre os bebês e suas mães, no contexto das novas
biotecnologias. Seguem discutindo as vicissitudes que acompanham a
situação de ser mãe por meio dessas técnicas, e o tornar-se sujeito
nesse novo contexto.
Ser mãe através da procriação assistida
O
que pretendemos enfatizar dessa breve e parcial exposição do pensamento
winnicottiano é a questão do desenvolvimento primitivo, tendo como
condição fundamental a provisão ambiental, que para ser satisfatória, um
fator básico reside na espontaneidade do cuidado materno. E é
justamente esse fator que pode se tornar mais complexo e difícil nas
mães que enfrentam longos e penosos tratamentos para engravidar.
A
reprodução assistida, além de trazer esperança e profunda satisfação a
muitos casais que desejam filhos e lutam contra a infertilidade, produz
tratamentos desgastantes e estressantes em relação a vários pontos de
vista (emocional, orgânico, financeiro, relacional etc). O
relacionamento e a sexualidade do casal são afetados. A gestação, quando
alcançada, é preocupante e angustiante – principalmente no primeiro
trimestre, pelo medo da perda e a sombra do aborto espontâneo. Nos casos
de gestação múltipla, a partir do sétimo mês também há maior
preocupação, em virtude de eventos como a doença hipertensiva da
gravidez e o diabetes gestacional, principais fatores da antecipação do
parto e prematuridade dos bebês.
As mulheres
entrevistadas em nossa pesquisa (Braga, 2005), que passam por um
tratamento rigoroso para engravidar, têm “algo mais” com que se ocupar.
Elas se confrontam intensamente com a dificuldade ou impossibilidade de
gerar um filho (seja a causa médica fundamental de origem feminina,
masculina ou do casal) e também com o desejo de ser mãe. Elas têm um
sentido de auto-exigência, cobrança e culpabilização muito elevado, e é
difícil para elas essa espontaneidade, esse estar “a sós” com seus
filhos.
“Na
época ela [a médica] me chocou, e eu saí muito arrasada da consulta com
ela, porque o exame dele realmente tinha dado uma quantidade de esperma
muito baixa. E ela disse: ‘olhe, do jeito que está, nem pra
fertilização serve (...). Não, agora a gente vai investigar o que está
acontecendo, e seja o que Deus quiser’. Foi muito difícil porque a gente
fica muito aquela coisa, assim, que ‘a culpa é de quem eu não estou
engravidando, por quê? A culpa é minha, a culpa é sua’, fica muito...
aquela coisa. (...) Então, aquela ansiedade meu Deus, era uma
dificuldade tão grande. (...) Eu sempre saía da consulta chorando,
sempre, sempre, sempre. Saía e chegava em casa arrasada” (Eliane1).
“É
angustiante, porque você vai vendo a idade passando. Eu tenho de correr
contra o tempo, entendeu? Eu nova desse jeito e não consegui já em duas
tentativas, aí eu comecei a me angustiar. A própria médica disse: você
tem de correr contra o tempo. Você já tem dois ovários que já foram
mexidos, quer dizer, eles já não estão mais eficientes como seriam se
não tivessem sido mexidos. Então, quer dizer, é uma corrida contra o
tempo mesmo. Em relação ao meu marido, não, ele tem o problema dele, não
vai mudar. Mas eu não posso perder os meus dois ovários. Então a
angústia é essa” (Renata).
São
muitas pessoas envolvidas no processo. A mulher sempre está rodeada por
especialistas, incumbida de cumprir prescrições do que deve ou não
fazer, com muita insegurança na própria capacidade de ser ela mesma. Ser
mãe é assumir a plena responsabilidade, e isso é diferente de fazer
apenas o que os outros dizem, ou de ser atenta e disciplinada para
seguir um roteiro homogêneo elaborado pelos estudiosos e técnicos.
Espera-se
que a mulher grávida passe por uma gradual transformação, não apenas em
seu corpo, mas também em seus sentimentos. Seu interesse movimenta-se
do exterior para o interior, e o centro do mundo passa a residir em seu
corpo. Ela começa a aceitar o risco de se preocupar com um único
objetivo – o bebê que vai nascer (Winnicott, 1965b).
A
mãe que sofreu muito para engravidar supervaloriza ao extremo a criança
em sua barriga, tudo gira em torno dela. Mesmo antes de engravidar, a
vida concentra-se em torno disso, nada mais importa. Por não se sentir
bastante segura para carregá-la, necessita muito do apoio dos que não
são mães daquele bebê, carece muito da cultura circundante, seja ela
científica ou do senso comum da família e amigos. Essa mãe muitas vezes
duvida de seus verdadeiros sentimentos e de sua compreensão acerca do
bebê.
“Aí
começou o medo de perder. A partir desse momento eu teria a
possibilidade de perder. Eu fui uma grávida que eu... Eu só me lembrava o
que tinha dentro da barriga, tomar o remédio na hora; se sentir uma dor
ligar para o médico. De fazer os exames, de ir ao médico. De comprar o
remédio, de ligar para o laboratório; eu não queria saber da outra parte
porque minha preocupação era de os bebês nascerem. (...) Aí eu sei que
foi uma gravidez assim, só mesmo de exames, só tem histórias de exames
na minha gravidez, de exames, de médicos. Durante a semana eu ia duas,
três vezes ao médico. Exame de sangue, ultra-sonografia. Eu acho que eu
nunca fiz, ninguém fez, tanta ultra-sonografia. É muita
ultra-sonografia, porque eu me preocupava em saber se tava bem”
(Bernadete).
Algo
muito importante é uma mãe sentir o mais cedo possível que seu filho é
digno de ser conhecido como pessoa. A primeira tarefa materna é a de
travar conhecimento com o bebê. Quando ele nasce, ela também não
acredita completamente nele nos primeiros momentos. Assim, conhecê-lo é
tarefa urgente, pois o bebê não é apenas um corpo a ser cuidado, é
também uma pessoa. Se o bebê não é sujeito por não existir outro, e sim
dependência e indiferenciação no primeiro momento, ele tem de ser
sujeito para a mãe, pois só assim ela pode se identificar com ele,
reconhecendo-o como pessoa.
“Então
eu vim chorar no dia que eu cheguei em casa, vim chorar literalmente,
porque aí desabou o mundo (...) e chorei tudo que eu não tinha chorado,
porque eu sentia aquilo, eu não sabia como era, não falava com ninguém.
Pelo amor de Deus, eu quero ficar sozinha! Eu não sei quanta coisa
aconteceu naquele quarto trancada, chorando. (...) Aí sim, até esse
momento... eu não quis ir ver as meninas quando eu saí do hospital. Eu
ia lá, olhava, ainda era meio estranho para mim aquele negócio de mãe,
sabe? Dentro da barriga era uma coisa, quando elas estavam fora virou
outra, não tinha leite, não tinha nada. Aí era aquela coisa meio
estranha, sabe? Eram os bebês que tavam ali, eram meus bebês, meus
bebês, mas não tinha aquele, aquela coisa não. Porque eu ainda tava me
sentindo tão mal, sabe? Eu tinha de desabafar de alguma forma. Então,
quando foi de noite eu disse: ‘Eu quero ir no hospital, eu quero ver as
meninas’” (Bernadete).
Infelizmente
essa cultura que circunda as mulheres que usam a tecnologia para
engravidar resgata em muito a tradição de se pensar que até os seis
meses de idade os bebês não são nada além de corpos e reflexos; que só a
técnica do cuidado é o que conta, não efetivamente o cuidado materno.
Winnicott (1965c) afirma justamente o contrário: a assistência materna é
sempre pessoal e humana; os cuidados físicos proporcionam o suprimento
de necessidades psicológicas, e o amor se expressa em cuidados
corporais.
A cultura produzida pelas
biotecnologias de certa forma contribui para atenuar a importância do
bebê como pessoa, ressaltando apenas sua fragilidade como corpo, sua
importância como filho de alguém que finalmente conseguiu engravidar e
ter o filho a quem dar seu sobrenome, e o que é preciso fazer para que
fique vivo e saudável do ponto de vista do organismo. A mãe é necessária
como pessoa viva, como presença e corpo vivo, como experiência de
continuidade de existência para o bebê, e muitas vezes, em virtude das
gestações múltiplas e prematuridade dos bebês, é separada deles
precocemente, assim como o pai.
“E
tanto que, quando elas nasceram, a pediatra dizia: ‘Mãe, eu vou dar
alta a C. [primeira filha]’. Na minha cabeça eu dizia: ‘Não, não dá alta
não’... eu não ia conseguir levar C. para casa. Eu não ia saber como
lidar com ela. (...) E conforme ela veio para casa, com seis dias, aí
foi uma maravilha, uma maravilha, porque se ela tivesse dado alta a C.
no dia que eu saí do hospital, tinha sido uma negação. Tudo que eu senti
naqueles meses todinhos, entendeu? Eu tinha que botar para fora de
alguma maneira. (...) E virou aquela festa dentro de casa, né? O bebê. E
as outras eu ia de manhã, ia de noite, com ele, todos os dias”
(Bernadete).
As
mulheres que buscam as novas tecnologias de procriação como solução para
a tão sonhada maternidade têm essa tarefa aumentada. Tal fato pode
estar relacionado a sentimentos intensos e ambíguos, como o de não poder
experimentar sua integração e realização idealizadas como pessoa e
como mulher, uma vez que alcançar a posição materna, gerando um filho no
próprio útero, para muitas delas, é um degrau de importância
fundamental para tal completude. Outro fato também relacionado é a
vivência da gravidez múltipla – um acontecimento significativo nos
tratamentos de reprodução assistida.
“Ah!
Ser mãe é assim... é dividir, é abdicar de muita coisa, é renunciar a
muita coisa, é educar junto com ele, educar os dois... mas deve ser
muito bom. (...) Eu tenho minha profissão, tenho minha vida, tudo. Mas
eu acho que o filho era a plenitude, era tudo o que eu queria agora”
(Denise).
“É
impressionante o amor que você tem pelo..., assim, desde o momento que
você sabe que está grávida. Eu passei quatro meses com os meus nenéns, e
eu já era assim, apaixonadíssima. Eu digo, ‘ah, eu queria tanto meus
dois de volta, até os meus três de volta, não tinha problema’. Eu acho
que homem nunca vai entender essa relação da gente, não é?... Eu até
sinto falta, ainda, tanta falta daqueles quatro meses que eu tava tão
feliz, que eu tinha eles dentro de mim” (Simone).
“Às
vezes a gente fica pensando que a gente está sendo egoísta, em vez de
todo esse gasto eu podia adotar, né? Mas aí vem também a questão da
mulher. A mulher quer ficar grávida, a mulher quer, né? Pode reclamar de
dor nas costas, de tudo, mas está linda, se achando ótima, se achando
linda, se achando poderosa, às vezes, né, porque está grávida. (...) Ah,
não tem, em termos de vivência, não tem nem uma palavra para definir
isso, mas eu me sinto assim realizada, muito feliz mesmo. Assim, ao
mesmo tempo muito difícil, eu faria de novo, porque é uma coisa de você
carregar mesmo em você” (Eliane).
Winnicott
(1965d) traz uma nota sobre os gêmeos – antes um fenômeno não muito
freqüente e hoje produzido em larga escala em laboratório. Para ele,
quase todas as mães afirmam que não teriam escolhido gêmeos se tivessem
sido consultadas. Hoje, as mães que passaram por tratamentos para
engravidar simplesmente continuam sem escolha, pois ter múltiplos é o
meio de ter um filho; ter múltiplos é, pois, um “acidente” que acontece
com freqüência. Muitas ainda engravidam de múltiplos quando fazem
fertilização em laboratório, e em virtude dos tratamentos dolorosos,
invasivos, caros e muitas vezes longos, enunciam a preferência por dois
filhos (o que estava em sua programação familiar) de uma vez, evitando
submeter-se a novo processo.
“O
pessoal fala: ‘e se vier três, e se vier quatro?’. Meu marido vive
vendo o álbum da clínica, ele passou na página que tinha três, quatro,
ele encostou o álbum, ficou logo apavorado... Mas, assim, eu sempre
penso na grande felicidade, se tivesse que acontecer, se fossem dois
meninos ou duas meninas, se fossem dois eu acho que seria... até por
conta da minha idade, sabe? Ter uma gravidez agora que já está sendo
difícil, e partir para uma outra depois. Eu acho que se já viessem dois
seria o ideal” (Denise).
Em
nossa pesquisa observamos também que algumas mulheres não se imaginam
mães de tantos filhos ao mesmo tempo (Braga, 2005). Trata-se de um
impacto muito grande, não elaborado durante a gravidez – na maioria das
vezes de risco e muito problemática. Não há tempo para elaborações.
Algumas relatam estados depressivos durante os tratamentos, na gestação
ou no pósparto. Depois que as crianças nascem também contam a respeito
de um choro ininterrupto, horas a fio, antes de poder ver os bebês e
poder estar com eles.
Em contrapartida,
também relatam a enorme satisfação de tê-los hoje, já crescidos, o
orgulho e a felicidade de ter e de exibir filhos múltiplos. Uma boa mãe
disposta a adaptar-se a seu bebê vê-se em maior dificuldade, sem dúvida,
quando é mãe de vários de uma vez. Deve ficar imensamente mais
complicado propiciar ao bebê o sentido de posse, a sensação de que
exerce o controle sobre a situação. Um bebê que é gêmeo de outro (ou de
outros) tem sempre um outro bebê (ou outros) com quem se defrontar. Isso
é diferente de desenvolver gradualmente uma disposição para permitir um
aditamento familiar, como se dá no caso do nascimento de um irmão
(Winnicott, 1965d).
“Ah,
você pode ter mais de um, certo, isso eu sempre soube. Mas eu nunca
imaginei que isso pudesse acontecer, entendeu? Dois ainda vá lá, mas
três? Pra mim é muito. Mas, assim, quem não quer ter filhos gêmeos, né?
Toda mulher gostaria de ter filhos gêmeos. Dois ainda... mas três? Pra
mim já era demais. Mas olhe, eu fiquei triste quando eu perdi esse que
não se desenvolveu, mas a própria Dra. Z. disse que ia ficar muito mais
tranqüila, porque uma gestação de gêmeos é muito diferente de trigêmeos”
(Simone).
Para
Winnicott, conta muito se os gêmeos sentem ou não que cada um exerce a
posse da mãe no início. A tarefa da mãe de vários é excedente. Como ela
pode dar-se toda a mais de um ao mesmo tempo? Sua tarefa talvez não seja
tratar igualmente a todos eles, mas sim tratar cada um como único,
reconhecê-los imediatamente e descobrir-lhes as diferenças.
Hoje
não contamos com a questão da semelhança física, pois os gêmeos
fertilizados são quase sempre de aparência diferente, pois são usados
vários óvulos e vários espermatozóides na fertilização. Todavia, sem
dúvida a mãe terá uma tarefa enorme, pois são muitos ao mesmo tempo, e a
tendência é tratá-los como se fossem um. Nada vale a pena se faltar um
deles, uma vez que após o nascimento permanecem, com freqüência, por
períodos variáveis na UTI neonatal. Muitas vezes não se consideram mães
de verdade enquanto todos não vão para casa. Às vezes também
experimentam sentimentos conflitantes de alívio e culpa em relação aos
que já vieram para casa e aos que ainda ficaram no hospital. A maior
dificuldade é manter com cada um dos filhos um relacionamento total, em
que cada um seja plenamente reconhecido pela mãe.
É
importante considerar a presença dos outros – presentes e ausentes ao
mesmo tempo – embriões que sobram de um procedimento de fertilização em
excesso e restam congelados. As mães relatam uma preocupação muito
grande com os embriões que estão em criopreservação. Manifestam enorme
dificuldade em olhar para os que estão ali com elas, e imaginam que
poderiam estar lá no nitrogênio líquido. Há ainda a probabilidade de o
“irmão gêmeo” ser implantado e nascer tempos depois. De alguma maneira,
os que estão congelados também estão presentes na dinâmica e no
imaginário familiar.
“E
aí vai, faz a cirurgia, a colocação. Aí o pior não é a medicação, é a
espera, saber se está ou não. E de quantos. Aí ela perguntou a mim
quantos eu queria colocar, porque tem nove. (...) Aí eu optei por
colocar só três (...) Sobrou, eu não vou fazer de novo, mas tem, o que é
que vou fazer com esses outros? (...) Aí tem as explicações da médica,
totalmente científicas: ‘não, não é embrião, é célula, só é embrião a
partir do momento que coloca’. Mas fica sempre essa coisa, você aceita
ou não aceita essa coisa. Porque, falando assim, parece uma coisa meio
seca, né? Vou selecionar os de melhor qualidade, e aquele que está lá?
Não poderia ser [filho] também? (...) E se eu não quiser ter mais, o que
é que faz com esses que estão lá congelados? (...) Aí... são todas
essas questões que são muito complicadas, que as pessoas pensam que não
existem, né?” (Eliane).
A
gestação é um período muito útil, um tempo suficiente para que possa
ocorrer uma transformação imperiosa na mulher (Winnicott, 1956). Do
mesmo tempo necessitam os pais e as pessoas que querem adotar.
Geralmente as mães entram em uma fase de desenvolvimento de uma
sensibilidade exacerbada – “quase uma doença” –, o que possibilita sua
adaptação às necessidades do bebê, e da qual elas se recuperam nas
semanas e meses subseqüentes. Tal fenômeno pode não ocorrer em muitas
mulheres que engravidam.
A mãe também já foi
um bebê e traz consigo as lembranças do cuidado de alguém para com ela; e
essas tanto ajudam quanto atrapalham. A preocupação materna primária é o
desenvolvimento, pelas mães, de uma capacidade para se identificar com
seus bebês, e o protótipo de todo cuidado materno é o holding. Este não
se reduz ao fato de a mãe segurar e manipular o bebê, mas dele cuidar,
em unidade com ele – processo que proporciona ao bebê confiança e
receptividade no e pelo mundo.
Algumas
mulheres apresentam uma gravidez muito carregada de angústia e incômodos
(Braga, 2005). Paralelamente, existe uma alegria incomensurável de
estar finalmente grávida, depois de tudo. Uma sensação contínua e
mesclada de medo, felicidade, desconforto e agonia. A gestação mantém o
mesmo aspecto de velocidade da época dos tratamentos. Nada pode esperar,
há uma infinidade de coisas e exames para fazer, não dando tempo para
elaborações.
“Pra
você ter uma idéia, quando elas nasceram, nasceram? Eu estava no dia
assim..., porque eu tive pressão... a minha pressão subiu de um jeito
que em uma semana eu troquei três vezes de remédio. Aí ela [a médica]
juntou com uma equipe dela para definirem se iam nascer naquele dia, no
dia seguinte. Estudar o caso, como é que estava, o meu açúcar que tava
lá em cima, aquela coisa toda. E ela ligou de noite dizendo que no dia
seguinte, às 7 horas da manhã eu estivesse no hospital para fazer
cirurgia. (...) ‘Eu vou ligar para (nome da médica), eu não quero que
ela tire os meus bebês agora. Eles vão ficar um pouquinho aqui dentro,
eu não estou preparada, eu estou com medo’. Eu tava com medo, medo. Eu
tinha medo de morrer literalmente” (Bernadete).
Curiosamente,
elas terão o tempo para chorar depois que os bebês nascerem e estiverem
precisando tanto da incubadora quanto delas. Ficarão, então, com tempo
para pensar e sentir a gravidez e o fato de que materialmente já terão o
filho (ou filhos) tão sonhado e desejado. Um outro aspecto que
observamos na gestação – por meio de manipulação externa de material
reprodutivo, como nos casos in vitro, e que dificulta o relacionamento
com o bebê dentro do útero e a vivência da criança imaginada – é a
existência de dúvidas e fantasias em relação à autenticidade do material
reprodutivo utilizado na fertilização. “Será que foi o meu óvulo, ou o
sêmen do meu marido?”; “será que os embriões transferidos eram os
meus?”. Vemos uma atualização da fantasia da “troca de crianças na
maternidade”, uma versão atual e tecnológica desta.
“Mas
é uma questão que tem de haver uma legislação em cima disso, até porque
você tem de confiar muito no médico. Porque se eu fizesse e eu não
confiasse na médica eu não ia poder pedir para ela guardar [os embriões
excedentes congelados]. Porque, quem me garante que o que ela vai botar
de volta é o meu? Quem me garante que o meu ela não vai vender? (...)
Olha, tem muita coisa. Agora, é assim: existe uma preocupação muito
grande, por exemplo, eu tenho plena confiança em minha médica, certo? Eu
acho que você tem de ter isso, porque senão você chega lá, você é
sedada, ela tira óvulos. Você não está lá dentro da sala para ver, você
nem sabe que aquilo é óvulo. Se chegar com o material dizendo que é seu
óvulo, como você sabe?” (Renata).
“Mas
é aquela gravidez estressada, sabe? Com medo até de se mexer. (...) vez
por outra tinha um sangramento, era aquele horror. Aí ia para o
ultra-som. Foi bem estressada a gravidez; bem estressada, bem
estressante. E eu ainda sonhava que, no dia que eu fiz... que
implantou... transferiu os embriões, no mesmo dia um casal que ele era
japonês. Pois eu sonhei a gravidez todinha que meu filho ia nascer
japonês. Eles trocaram! [risos] Pronto, trocaram! Aí, na hora do parto
eu fazia: ‘ai, meu Deus, se nascer japonês agora não dá mais não!’. Eu
sonhava direto, ficava com medo, porque foi na mesma hora. Eu entrei
numa sala de cirurgia, ela na outra. E a gente ficou justamente nos
quartos na mesma hora, nos quartos da clínica. Aí eu falava: ‘C
[marido], trocaram, trocaram!’” (Beatriz).
Winnicott
(s.d.) destaca que se a capacidade biológica da mulher (e do homem)
para criar um bebê vivo e saudável pode chegar a 100%, em relação a sua
capacidade psicológica só podemos chegar a aproximações. Nenhuma mãe é
100% capaz de produzir fantasisticamente um bebê vivo e total. E não é
rara a surpresa diante do nascimento de uma criança que dizem ser sua e
em quem ela ainda não acredita incondicionalmente.
Imaginem
as mães e pais que passam por tortuosos tratamentos e inúmeras
tentativas, permanentemente assistidos, em virtude de sua dificuldade
para conceber espontaneamente. E também os que, mesmo depois de uma
gravidez confirmada, atravessam uma ou mais experiências terríveis de
aborto não provocado.
Nota
1. Os nomes aqui utilizados são fictícios, para preservar a identidade das participantes.
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