Acadêmica: Aline Meira - RA: 76792
Texto retirado de: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psyche/v10n19/v10n19a09.pdf>
“Reprodução assistida e subjetivação infantil” – Parte III
Maria
da Graça Reis Braga - Mestre em Psicologia Clínica (Universidade
Católica de Pernambuco/UNICAP); Membro do Laboratório e do Grupo de
Pesquisa Interação Social e Familiar (UNICAP).
Maria
Cristina Lopes de Almeida Amazonas - Doutora em Psicologia
(Universidade de Deusto, Bilbao/Espanha); Professora da Graduação em
Psicologia e do Mestrado em Psicologia Clínica (Universidade Católica de
Pernambuco/UNICAP).
ResumoNeste
artigo as autoras se propõem a refletir sobre o processo de
subjetivação infantil, tendo em vista o contexto do desenvolvimento das
tecnologias de procriação assistida. Para tal, irão se valer dos
ensinamentos de Winnicott a respeito das relações primárias entre pais e
filhos, articulando-os com o estado gestacional, nascimento e relações
primárias entre os bebês e suas mães, no contexto das novas
biotecnologias. Seguem discutindo as vicissitudes que acompanham a
situação de ser mãe por meio dessas técnicas, e o tornar-se sujeito
nesse novo contexto.
A subjetivação infantil
Quando
os bebês nascem há uma dificuldade geral de se atribuir ao bebê
qualquer coisa que se possa chamar de psicológico. Winnicott (1964)
afirma que as mães geralmente vêem para além do que existe, da realidade
material; e os cientistas não vêem nada além desta, a não ser que possa
ser provado. No recém-nascido, fisiologia e psicologia constituem uma
unidade, é a psique residindo no soma, e os bebês são humanos desde o
começo. Para o bebê prematuro (o que acontece freqüentemente nos
nascimentos de gestações múltiplas por fertilização assistida), a
incubadora pode significar também condições psicológicas, ao lado do
contato humano e do corpo da mãe.
À anatomia e
à fisiologia do bebê soma-se a psicologia. A vida psicológica da
criança não começa exatamente no momento em que ela nasce, pois há
enormes diferenças psicológicas entre crianças prematuras e as nascidas
no tempo esperado (Winnicott, 1945). O momento certo do nascimento é
quando fisiologicamente chegou a hora de abandonar o útero, o que é
antecipado na gravidez múltipla pelos fatores de risco de morte para a
mãe e para os bebês. Dessa maneira, o nascimento é, ao mesmo tempo,
continuidade de ser e intrusão ambiental.
Porém,
muitas vezes o treinamento que os técnicos do processo de procriação
recebem na maternidade quanto ao recém-nascido, por maior que seja sua
importância para assegurar a integridade física do bebê (e sem dúvida é
algo que esperamos deles e a eles agradecemos imensamente), de alguma
maneira diminui parcialmente seu interesse pelos bebês como seres
humanos – não apenas como vida humana, mas como pessoas, apesar de eles
já o serem para seus pais e familiares.
A
intrusão ambiental no processo de procriação assistida é um fato
importante. Desde o início tudo é monitorizado e tem participação
externa: na concepção e ao longo de toda a gravidez uma quantidade
enorme de ultra-sonografias, além dos exames muito invasivos. Enfim,
muito pouco é deixado ao encargo da mãe e do pai. Além disso, temos o
fato de que nossa cultura valoriza e provoca demasiadamente uma forma de
viver reativamente (à intrusão ambiental), em oposição a uma vida
criativa.
Coloca-se
em foco e reveste-se de importância e valor a questão da intrusão
ambiental, pois ter filhos assim também é motivo de orgulho e status; é
uma forma higiênica, atualmente bastante cultuada, de ser mãe e pai. A
intrusão ambiental de vilã passou a ser exclusivamente benéfica, quase
“um favor que se faz à natureza”, ao mesmo tempo divina, ingênua e
atrasada, perfeita e imperfeita, sagaz e precária.
O
bebê, em seu processo de integração, vivencia e vai incorporando e
amalgamando experiências de acordo com as posições nas quais passou a
pertencer ao mundo humano, tanto no tempo como no espaço (Winnicott,
1968). Há diferenças de maternagem, peculiaridades da angústia e da
história de cada um, ou seja, aquilo que chamamos subjetividade, não
apenas o fato de ser sujeito, mas tornar-se sujeito, um processo
contínuo da existência. Isto não significa diferença de valor, melhor ou
pior, normal ou patológica. Não se trata de valor, é diferença mesmo.
Como
vai ser significado pela criança o fato de ter sido um bebê de proveta?
De ter nascido de uma mãe de aluguel? De ter irmãos gêmeos (inclusive
congelados)? Em seu ambiente, seus pais foram afetados pela dúvida, pela
falta de confiança em sua capacidade de gerar, pelo dilema da
infertilidade, tanto feminina quanto masculina. Para eles, durante certo
tempo existiu a dolorosa constatação de que o amor, a sexualidade e o
desejo eram insuficientes para procriar. Recorreram aos especialistas o
tempo todo para dizerem o que fazer e como ser.
Isso
tudo poderá imprimir uma diferença no que se refere à subjetivação das
crianças. Somente o tempo e o trabalho na clínica infantil, na
instituição e nas escolas podem nos dar pistas do que estas questões
aqui apontadas podem ter trazido para as experiências infantis, e de
como tudo isso será atualizado e significado no processo de
subjetivação.
Tudo
o que vimos apenas concerne ao problema de casais inférteis que
recorrem a tratamentos para infertilidade. Também temos de considerar
toda a parafernália de acontecimentos decorrentes do desenvolvimento
tecnológico que excede a esse fato. Hoje em dia já temos um rol bastante
diverso e numeroso de experiências em todo mundo. Mães sexagenárias,
septuagenárias, fertilizadas após a menopausa. Mães de aluguel brigando
na Justiça com as mães genéticas pelos filhos. Informações genéticas
misturadas, provenientes de vários gametas de pessoas diferentes para
criar um embrião. Embriões criados sem a participação do gameta
masculino; modelos beldades vendendo óvulos pela internet; embriões
fertilizados a partir de gametas de pessoas mortas; mulher inseminada
pelo sêmen do irmão; clonagem reprodutiva etc. Com relação a isso tudo, e
mais ainda o que virá em maior escala, há muito em que se pensar.
Nos
diversos tratamentos para engravidar é tácito que a cada frustração e
fracasso, a cada gravidez que não vem ou a cada aborto que leva embora a
gravidez tão sonhada é colocada uma nova opção, de maneira muito veloz.
Nem sempre a mulher será levada a falar sobre seu desejo pelo filho,
sobre sua dificuldade de gerar e de gestar, sobre suas relações
primárias com suas próprias mães, sobre sua família, seu relacionamento
com o marido, o desejo dele, e muitos outros fatores tão importantes
quanto os bio-fisiológicos no que concerne à procriação humana.
“Mas
é muita coisa. Você sente; você vê esse outro lado. As outras pessoas,
que estão dentro do processo, nem param para pensar, pensam só na
questão do dinheiro, pensam só... poxa, tanto remédio para tomar,
coitadinha, mas não vêem as outras coisas que têm em volta do processo.
Porque é muito mais complicado do que... é muito mais complicado do que
se imagina (...) Porque tem várias fases, cada fase traz novas questões
(...) Por isso eu acho que a sua profissão [psicólogo] devia ter... não
deveria ser uma coisa de opção, mas deveria ser uma coisa devida, porque
é uma questão de saúde mental mesmo. Porque tem gente que não está
emocionalmente muito bem, acho que... ou essa coisa, ou acaba a relação,
ou pira mesmo, não fica bem para a vida toda” (Eliane1).
Se
o modelo médico (associado à tecnologia arrojada e de ponta) critica o
modelo psicogênico, em muito representado pela Psicanálise, no que se
refere à responsabilização e culpabilização da mulher e do homem em suas
dificuldades com a procriação, na verdade ele também não se coloca em
uma posição que prioriza o cuidado, na acepção Winnicottiana. No modelo
médico, a mãe e o pai também podem ser infantilizados, não porque são
considerados em suas relações primárias e em sua dívida simbólica com
seus antecessores, mas porque são excluídos do processo, não são nele
implicados – apenas se submetem à intervenção. E a atividade dos
genitores, muitas vezes, resume-se em torcer e rezar, além de “tentar
evitar o stress” (sabe-se lá como), para não atrapalhar o procedimento.
No
estudo dessas situações é necessário evitar a tentação, principalmente
no campo da Psicologia Clínica, de nos situar como “ortopedistas”
(Ceccarelli, 2002), no sentido de que se não for dessa ou daquela
maneira de maternar, a doença não apenas é explicada, como também
esperada. É preciso, também, não cair no engodo de recorrermos às
origens dos bebês para explicar e caucionar os sintomas. Igualmente, em
nossa escuta, não podemos cair no jogo do que “tudo o que se disser
poderá ser usado contra quem disse”, ou o tão conhecido “se der cara, eu
ganho, se der coroa, você perde”.
Afinal de
contas, o profissional “psi” também faz parte do modelo acima, ao
participar da equipe médica como aquele que vai, literalmente, segurar a
mão da paciente no momento da aspiração dos óvulos ou da transferência
de embriões para o útero. Ou para recebê-las no processo
psicoterapêutico ou psicanalítico após um abortamento ou após anos de
infrutíferas tentativas, o que nem sempre ocorre. Uma nova tentativa é
agendada e a soma enorme que elas já gastam com a clínica médica
freqüentemente as inibe de procurar a clínica psicológica ou
psicanalítica.
Safra (2004) aponta que na
clínica contemporânea infantil percebem-se os tipos de adoecimento de
nosso tempo. A exemplo, temos crianças que não entram no mundo humano,
pois são criadas pela técnica do cuidado e não pelo cuidado materno
humano. Tudo é pensado, tudo é programado. A luz e a vitrine são
insuportáveis; a visibilidade é total. As crianças não se sentem reais
nem existentes. Temos crianças que são signos, emblemas sociais,
logomarcas de seus genitores, e não crianças. Os bebês aqui são pessoas
que se organizam apenas como máscaras sociais. E o vazio é enorme.
Temos
também crianças que se desenvolvem como reação, repúdio ao social. Vêem
o mundo como mentira, como hipocrisia e desejam avidamente um
relacionamento com o outro mediado pela palavra que não mente. Temos
pessoas altamente aderidas ao tecnológico, personalidades digitais,
absolutamente virtuais. Parece que foram autogeradas, e nelas não se
encontra traço humano de corporeidade cindida, de limite, de
sexualidade.
A mutação cultural a que
assistimos nas últimas décadas (Melman, 2003), impulsionada pelo
desenvolvimento tecnológico e pela queda das grandes referências que
sustentavam o mundo moderno (a Igreja, a política, as ideologias),
coloca-nos o fenômeno das novas formas de parentalidade e filiação e as
novas configurações familiares. Coloca-nos a diferença, a alteridade, o
outro, e o desafio de imaginar, de pensar, de sentir e ser “como ele”.
Sintoma
e sofrimento psíquico não são privilégio de uma forma de nascer, de ser
gerado, de pertencer a um grupo familiar. Esse engano já tem realizado à
exaustão suas incursões nas famílias por adoção. E esperamos que não se
realize da mesma maneira nas famílias de procriação assistida.
Subjetivação é um processo, é continuidade de ser, e as crianças geradas
e nascidas por diferentes procedimentos, mesmo em casos de traumas
reais, poderão ressignificar suas experiências continuamente e buscar
novos nascimentos, livres de intrusão ambiental excessiva.
Do
ponto de vista da clínica, o fundamental de tudo isso é escutar a
diferença e nos deixarmos afetar pelo acontecimento. Que possamos nos
permitir uma experiência de desconstrução de nossa visão tradicional de
família, e possamos nos atualizar e refletir, do ponto de vista humano e
ético, no tema das biotecnologias, para melhor articular nossas formas
de escuta, compreensão e intervenção.
Nota
1. Os nomes aqui utilizados são fictícios, para preservar a identidade das participantes.
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