quarta-feira, 27 de junho de 2012

“Reprodução assistida e subjetivação infantil” – Parte III

Acadêmica: Aline Meira - RA: 76792

Texto retirado de:  <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psyche/v10n19/v10n19a09.pdf>

 “Reprodução assistida e subjetivação infantil” – Parte III
Maria da Graça Reis Braga - Mestre em Psicologia Clínica (Universidade Católica de Pernambuco/UNICAP); Membro do Laboratório e do Grupo de Pesquisa Interação Social e Familiar (UNICAP).
Maria Cristina Lopes de Almeida Amazonas - Doutora em Psicologia (Universidade de Deusto, Bilbao/Espanha); Professora da Graduação em Psicologia e do Mestrado em Psicologia Clínica (Universidade Católica de Pernambuco/UNICAP).

ResumoNeste artigo as autoras se propõem a refletir sobre o processo de subjetivação infantil, tendo em vista o contexto do desenvolvimento das tecnologias de procriação assistida. Para tal, irão se valer dos ensinamentos de Winnicott a respeito das relações primárias entre pais e filhos, articulando-os com o estado gestacional, nascimento e relações primárias entre os bebês e suas mães, no contexto das novas biotecnologias. Seguem discutindo as vicissitudes que acompanham a situação de ser mãe por meio dessas técnicas, e o tornar-se sujeito nesse novo contexto.
A subjetivação infantil
Quando os bebês nascem há uma dificuldade geral de se atribuir ao bebê qualquer coisa que se possa chamar de psicológico. Winnicott (1964) afirma que as mães geralmente vêem para além do que existe, da realidade material; e os cientistas não vêem nada além desta, a não ser que possa ser provado. No recém-nascido, fisiologia e psicologia constituem uma unidade, é a psique residindo no soma, e os bebês são humanos desde o começo. Para o bebê prematuro (o que acontece freqüentemente nos nascimentos de gestações múltiplas por fertilização assistida), a incubadora pode significar também condições psicológicas, ao lado do contato humano e do corpo da mãe.
À anatomia e à fisiologia do bebê soma-se a psicologia. A vida psicológica da criança não começa exatamente no momento em que ela nasce, pois há enormes diferenças psicológicas entre crianças prematuras e as nascidas no tempo esperado (Winnicott, 1945). O momento certo do nascimento é quando fisiologicamente chegou a hora de abandonar o útero, o que é antecipado na gravidez múltipla pelos fatores de risco de morte para a mãe e para os bebês. Dessa maneira, o nascimento é, ao mesmo tempo, continuidade de ser e intrusão ambiental.

Porém, muitas vezes o treinamento que os técnicos do processo de procriação recebem na maternidade quanto ao recém-nascido, por maior que seja sua importância para assegurar a integridade física do bebê (e sem dúvida é algo que esperamos deles e a eles agradecemos imensamente), de alguma maneira diminui parcialmente seu interesse pelos bebês como seres humanos – não apenas como vida humana, mas como pessoas, apesar de eles já o serem para seus pais e familiares.
A intrusão ambiental no processo de procriação assistida é um fato importante. Desde o início tudo é monitorizado e tem participação externa: na concepção e ao longo de toda a gravidez uma quantidade enorme de ultra-sonografias, além dos exames muito invasivos. Enfim, muito pouco é deixado ao encargo da mãe e do pai. Além disso, temos o fato de que nossa cultura valoriza e provoca demasiadamente uma forma de viver reativamente (à intrusão ambiental), em oposição a uma vida criativa.
Coloca-se em foco e reveste-se de importância e valor a questão da intrusão ambiental, pois ter filhos assim também é motivo de orgulho e status; é uma forma higiênica, atualmente bastante cultuada, de ser mãe e pai. A intrusão ambiental de vilã passou a ser exclusivamente benéfica, quase “um favor que se faz à natureza”, ao mesmo tempo divina, ingênua e atrasada, perfeita e imperfeita, sagaz e precária.
O bebê, em seu processo de integração, vivencia e vai incorporando e amalgamando experiências de acordo com as posições nas quais passou a pertencer ao mundo humano, tanto no tempo como no espaço (Winnicott, 1968). Há diferenças de maternagem, peculiaridades da angústia e da história de cada um, ou seja, aquilo que chamamos subjetividade, não apenas o fato de ser sujeito, mas tornar-se sujeito, um processo contínuo da existência. Isto não significa diferença de valor, melhor ou pior, normal ou patológica. Não se trata de valor, é diferença mesmo.
Como vai ser significado pela criança o fato de ter sido um bebê de proveta? De ter nascido de uma mãe de aluguel? De ter irmãos gêmeos (inclusive congelados)? Em seu ambiente, seus pais foram afetados pela dúvida, pela falta de confiança em sua capacidade de gerar, pelo dilema da infertilidade, tanto feminina quanto masculina. Para eles, durante certo tempo existiu a dolorosa constatação de que o amor, a sexualidade e o desejo eram insuficientes para procriar. Recorreram aos especialistas o tempo todo para dizerem o que fazer e como ser.
Isso tudo poderá imprimir uma diferença no que se refere à subjetivação das crianças. Somente o tempo e o trabalho na clínica infantil, na instituição e nas escolas podem nos dar pistas do que estas questões aqui apontadas podem ter trazido para as experiências infantis, e de como tudo isso será atualizado e significado no processo de subjetivação.
Tudo o que vimos apenas concerne ao problema de casais inférteis que recorrem a tratamentos para infertilidade. Também temos de considerar toda a parafernália de acontecimentos decorrentes do desenvolvimento tecnológico que excede a esse fato. Hoje em dia já temos um rol bastante diverso e numeroso de experiências em todo mundo. Mães sexagenárias, septuagenárias, fertilizadas após a menopausa. Mães de aluguel brigando na Justiça com as mães genéticas pelos filhos. Informações genéticas misturadas, provenientes de vários gametas de pessoas diferentes para criar um embrião. Embriões criados sem a participação do gameta masculino; modelos beldades vendendo óvulos pela internet; embriões fertilizados a partir de gametas de pessoas mortas; mulher inseminada pelo sêmen do irmão; clonagem reprodutiva etc. Com relação a isso tudo, e mais ainda o que virá em maior escala, há muito em que se pensar.
Nos diversos tratamentos para engravidar é tácito que a cada frustração e fracasso, a cada gravidez que não vem ou a cada aborto que leva embora a gravidez tão sonhada é colocada uma nova opção, de maneira muito veloz. Nem sempre a mulher será levada a falar sobre seu desejo pelo filho, sobre sua dificuldade de gerar e de gestar, sobre suas relações primárias com suas próprias mães, sobre sua família, seu relacionamento com o marido, o desejo dele, e muitos outros fatores tão importantes quanto os bio-fisiológicos no que concerne à procriação humana.


“Mas é muita coisa. Você sente; você vê esse outro lado. As outras pessoas, que estão dentro do processo, nem param para pensar, pensam só na questão do dinheiro, pensam só... poxa, tanto remédio para tomar, coitadinha, mas não vêem as outras coisas que têm em volta do processo. Porque é muito mais complicado do que... é muito mais complicado do que se imagina (...) Porque tem várias fases, cada fase traz novas questões (...) Por isso eu acho que a sua profissão [psicólogo] devia ter... não deveria ser uma coisa de opção, mas deveria ser uma coisa devida, porque é uma questão de saúde mental mesmo. Porque tem gente que não está emocionalmente muito bem, acho que... ou essa coisa, ou acaba a relação, ou pira mesmo, não fica bem para a vida toda” (Eliane1).


Se o modelo médico (associado à tecnologia arrojada e de ponta) critica o modelo psicogênico, em muito representado pela Psicanálise, no que se refere à responsabilização e culpabilização da mulher e do homem em suas dificuldades com a procriação, na verdade ele também não se coloca em uma posição que prioriza o cuidado, na acepção Winnicottiana. No modelo médico, a mãe e o pai também podem ser infantilizados, não porque são considerados em suas relações primárias e em sua dívida simbólica com seus antecessores, mas porque são excluídos do processo, não são nele implicados – apenas se submetem à intervenção. E a atividade dos genitores, muitas vezes, resume-se em torcer e rezar, além de “tentar evitar o stress” (sabe-se lá como), para não atrapalhar o procedimento.

No estudo dessas situações é necessário evitar a tentação, principalmente no campo da Psicologia Clínica, de nos situar como “ortopedistas” (Ceccarelli, 2002), no sentido de que se não for dessa ou daquela maneira de maternar, a doença não apenas é explicada, como também esperada. É preciso, também, não cair no engodo de recorrermos às origens dos bebês para explicar e caucionar os sintomas. Igualmente, em nossa escuta, não podemos cair no jogo do que “tudo o que se disser poderá ser usado contra quem disse”, ou o tão conhecido “se der cara, eu ganho, se der coroa, você perde”.
Afinal de contas, o profissional “psi” também faz parte do modelo acima, ao participar da equipe médica como aquele que vai, literalmente, segurar a mão da paciente no momento da aspiração dos óvulos ou da transferência de embriões para o útero. Ou para recebê-las no processo psicoterapêutico ou psicanalítico após um abortamento ou após anos de infrutíferas tentativas, o que nem sempre ocorre. Uma nova tentativa é agendada e a soma enorme que elas já gastam com a clínica médica freqüentemente as inibe de procurar a clínica psicológica ou psicanalítica.
Safra (2004) aponta que na clínica contemporânea infantil percebem-se os tipos de adoecimento de nosso tempo. A exemplo, temos crianças que não entram no mundo humano, pois são criadas pela técnica do cuidado e não pelo cuidado materno humano. Tudo é pensado, tudo é programado. A luz e a vitrine são insuportáveis; a visibilidade é total. As crianças não se sentem reais nem existentes. Temos crianças que são signos, emblemas sociais, logomarcas de seus genitores, e não crianças. Os bebês aqui são pessoas que se organizam apenas como máscaras sociais. E o vazio é enorme.
Temos também crianças que se desenvolvem como reação, repúdio ao social. Vêem o mundo como mentira, como hipocrisia e desejam avidamente um relacionamento com o outro mediado pela palavra que não mente. Temos pessoas altamente aderidas ao tecnológico, personalidades digitais, absolutamente virtuais. Parece que foram autogeradas, e nelas não se encontra traço humano de corporeidade cindida, de limite, de sexualidade.
A mutação cultural a que assistimos nas últimas décadas (Melman, 2003), impulsionada pelo desenvolvimento tecnológico e pela queda das grandes referências que sustentavam o mundo moderno (a Igreja, a política, as ideologias), coloca-nos o fenômeno das novas formas de parentalidade e filiação e as novas configurações familiares. Coloca-nos a diferença, a alteridade, o outro, e o desafio de imaginar, de pensar, de sentir e ser “como ele”.

Sintoma e sofrimento psíquico não são privilégio de uma forma de nascer, de ser gerado, de pertencer a um grupo familiar. Esse engano já tem realizado à exaustão suas incursões nas famílias por adoção. E esperamos que não se realize da mesma maneira nas famílias de procriação assistida. Subjetivação é um processo, é continuidade de ser, e as crianças geradas e nascidas por diferentes procedimentos, mesmo em casos de traumas reais, poderão ressignificar suas experiências continuamente e buscar novos nascimentos, livres de intrusão ambiental excessiva.
Do ponto de vista da clínica, o fundamental de tudo isso é escutar a diferença e nos deixarmos afetar pelo acontecimento. Que possamos nos permitir uma experiência de desconstrução de nossa visão tradicional de família, e possamos nos atualizar e refletir, do ponto de vista humano e ético, no tema das biotecnologias, para melhor articular nossas formas de escuta, compreensão e intervenção.

Nota
1. Os nomes aqui utilizados são fictícios, para preservar a identidade das participantes.

BIBLIOGRAFIA:

BRAGA, Maria da Graça Reis. Maternidade e tecnologias de procriação: o feminino na contemporaneidade. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). Universidade Católica de

Recife. Recife, 2005.
CECCARELLI, Paulo Roberto. Configurações edípicas da contemporaneidade: reflexões sobre as novas formas de filiação. Pulsional Revista de Psicanálise. São Paulo. XV(161): 88-98, 2002.
MELMAN, Charles. Novas formas clínicas no início do terceiro milênio. Porto Alegre: CMC, 2003.
SAFRA, Gilberto. A pó-ética na clínica contemporânea. São Paulo: Idéias e Letras, 2004.
SOUZA, Octavio de. Relação sujeito e objeto em Winnicott e Lacan. Minicurso proferido pelo
Prof. Octavio de Souza, realizado no programa de Mestrado em Psicologia Clínica, da Universidade Católica de Pernambuco/UNICAP. Recife, jul-ago/2003.
WINNICOTT, D.W. (1951). A criatividade e suas origens. In: WINNICOTT, D.W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
WINNICOTT, D.W. (1965a). O bebê como organização em marcha. In: WINNICOTT, D.W. A criança e o seu mundo. 6. edição. Rio de Janeiro: LTC, 1982a.
WINNICOTT, D.W. (1965b). Conheça o seu filhinho. In: WINNICOTT, D.W. A criança e o seu mundo. 6. edição. Rio de Janeiro: LTC, 1982b.
WINNICOTT, D.W. (1965c). Mais idéias sobre os bebês como pessoas. In: WINNICOTT, D.W. A criança e o seu mundo. 6. edição. Rio de Janeiro: LTC, 1982c.

WINNICOTT, D.W. (1965d). Gêmeos. In: WINNICOTT, D.W. A criança e o seu mundo. 6. edição.
Rio de Janeiro: LTC, 1982d.
WINNICOTT, D.W. (1960). Teoria do relacionamento paterno-infantil. In: WINNICOTT, D.W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. 3. edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
WINNICOTT, D.W. (s.d). Nota sobre o relacionamento mãe-feto In: WINNICOTT, C.; SHEPHERD,
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WINNICOTT, D.W. (1964). O recém-nascido e sua mãe. In: WINNICOTT, D.W. Os bebês e suas mães. 2. edição. São Paulo: Martins Fontes, 1999a.
WINNICOTT, D.W. (1968). A comunicação entre o bebê e a mãe e entre a mãe e o bebê: convergências e divergências. In: WINNICOTT, D.W. Os bebês e suas mães. 2. edição. São Paulo: Martins Fontes, 1999b.
WINNICOTT, D.W. (1956). A preocupação materna primária. In: WINNICOTT, D.W. Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000a.
WINNICOTT, D.W. (1945). O desenvolvimento emocional primitivo. In: WINNICOTT, D.W. Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000b.

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